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(Antes do texto, um breve parágrafo. Não gosto de escrever coisas ruins. Sinto muito mas hoje tive que fazê-lo. Não consegui guardar para mim.)

Onde tudo começou não me recordo. Porque essas coisas não têm começo, meio e fim. Têm flashes de acontecimentos. Têm partes e pedaços. E o pedaço que começo são com eles.

Homens assassinavam as pessoas na rua, todas com qualquer traço de felicidade. As gordas eram poupadas dos tiros da morte. Não sei porque, algum trauma talvez dos assassinos. Percorriam toda cidade entrando em restaurantes e prédios e todos e quaisquer lugares. Entravam os cinco, sedentos de sangue atirando frenéticos e com olhares devoradores de ódio. Gritos, pessoas correndo, corpos vermelhos estirados, pânico. Em seguida jogavam os cadáveres no furgão. Dentro dele havia um processador que moía todos. Uma mangueira externa despejava na calçada o creme sujo e fedorento em que se transformavam. Assim não havia provas. Era matar, moer, jogar fora e ir pra próxima chacina. Eram porcos imundos e invisíveis na noite escura. Ninguém conseguia prendê-los.

Na hora do estilhaçamento dos mortos, apareceram 3 vezes, 3 garotos gordos com ar de pequenos demônios. E pediam pra beber os corpos líquidos. Os assassinos colocavam então a mangueira na boca deles. Bebiam cadáveres. Quem sabe almas? Era uma cena infernal inexplicável. Vômito subia à garganta e nojo. Cheiro de miúdos sangrados, ossos estraçalhados, órgãos dilacerados daquela papa densa marrom acinzentada. E os garotos bebiam! Bebiam e bebiam! Incansáveis. Insaciáveis. Escorriam pelas blusas rasgadas e engordavam mais. Suas barrigas inchavam. Os assasssinos diziam “Chega” e partiam com pressa voraz no furgão varando o escuro da cidade.

Eu? Eu só fugia. Sempre estou fugindo. A sensação de não existir esconderijo. Estava passando uma rua de bairro pobre e perigoso quando passei em frente à uma casa de portão entreaberto. Lá estava o furgão e ouvi as vozes deles pela fresta. Medo. Não me encontraram mas eu os encontrei. Corri o máximo que pude por aquelas ruas semi desertas de poucas casas, mato e chão de terra. Antes olhei a placa da rua e forcei pra memorizar o nome enquanto eu fugia. Caí numa estrada. Tive que continuar. Era noite. Sempre noite. Corria. Quando carros vinham eu me jogava nos arbustos laterais tentando me esconder e ficava imóvel, sem respirar, como se não respirar me fizesse virar pedra. Torcia pra que não visse o furgão vindo. Não veio. Ao invés, apareceram 3 homens, me viram e perseguiram. Porque me queriam? Só corria. Subi o morro e me alcançaram. Consegui empurrar um pelo despenhadeiro. Desci correndo para a estrada novamente apostando minha última esperança em qualquer carro que viesse e me levasse dali. Daqueles dois homens restantes que quase me alcançavam. E se viesse o furgão? Não veio ele, nem carros, nem ninguém. Não veio…

Se eu morri? Não. Nunca morro. Já disse que só fujo. Morri somente uma vez, há tempos. Não morri mas acordei. Intacta, como pedra. Agora sim eu era uma pedra. Petrificada de pesadelos.

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