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– Poliana, eu vou morrer.

– Como assim Lisa?

– Ah, acordei bem mas depois de meia hora me veio essa certeza. Dormi mais, tive pesadelos e não consegui acordar. No meio do dia abri os olhos achando que estava nas geleiras da eternidade. Olha, vou tentar explicar. É só que eu nasci doente. Só isso. Com pensamentos demais no cérebro. E pode piorar. Porque a qualquer momento posso virar um urso polar. E quando sinto que comecei a me transformar, eu penso que vou morrer.

– Um urso polar?

– É, igual minha mãe. Hoje olhei pras minhas mãos e elas viraram enormes patas brancas e meus dentes se afiaram como navalhas.
Daí to pensando em fazer uma transfusão de sangue. Porque dizem que a gente é o que é pelo sangue da nossa família. Então estou cogitando seriamente essa possibilidade, trocar todo esse sangue polar que corre nas minhas veias. Ele está me estufando. To virando ursa. Vou procurar algum hospital clandestino que me faça.

– Mas Lisa, todos somos ursos no fundo, de alguma maneira. Todos somos doentes de alguma maneira. Daqui a pouco essa certeza de morte passa e você volta ao normal. Bom, normal você entende o que eu digo né. Ninguém é normal.

– Eu sei Poliana, sei desse blá todo. As pessoas são “meio” ursas, mas quando são ursas inteiras de verdade, são doentes de verdade, e não “meio” doentes. Mas ah, esquece. Vou cortar as patas e arrancar os caninos…que ilusão mais peixe! Sei que não posso. Vou mesmo é deitar de novo e me esconder. Esperar que amanhã eu acorde e eu tenha voltado ao normal. “Normal”, você me entende…

– Faça isso. Se sentir muito frio vou aí te dar um abraço. Mas sei que nessas horas você prefere hibernar. Até amanhã Lisa, amanhã vai ser outro dia.

8 thoughts on “Diálogo com ela

  1. Fantástico. Imaginação chegou aí e parou. O portugês cada vez mais perfeito e a criatividade mais em alta. Mamãe ursa não vai te transformar em ursa mas como você mesma disse pode aparar as arestas.Aí fica com a FORÇA da ursa , a beleza. Bjos. Parabéns

    • Rs, te amo! Só fico doente as vezes…e tenho medo de piorar. Doente da alma, de dor e tristeza que vêm de um nada, me empurram por trás e me jogam no chão. Chão molhado, gelado, difícil de me apoiar e levantar. Você sabe bem e sabe mais o que é isso. Uma tristeza estranha. Uma pseudo-verdade que se instala na boca dos ouvidos susurrando uma infelicidade. Mas sabemos que amanhã é outro dia. Te amo.

  2. Ela era borboleta, mas era gente.
    E vivia dizendo: Eu só queria ser bicho, eu só queria ser bicho, eu só queria ser bicho.
    Ser humano era muito doloroso para ela.
    Ser parte de toda aquela angústia e piração eminente a endoidecia de piedade e pavor.
    Só queria ser bicho, uma girafa talvez.
    Um dia encontrou em seu jardim uma girafa amarela com asas lilás de borboleta e um bilhetinho que dizia: Até as girafas querem ser você.

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