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A 25 anos atrás e alguns dias estava eu lá, na precária maternidade – na cidade do rei – com a cabeça pra fora antes mesmo da enfermeira chegar. Capixaba moreninha nascendo pro mundo. Forcei pra sair porque queria logo ver de qual é que era aquela que me carregou por nove meses. Olhei pra ela e disse com meus olhos puxados “Mãe, você por aqui! Prazer te olhar nos olhos! Olhos de um tão profundo que parecem estar em outro mundo”. Ela, mesmo na dor e me vendo sair daquele jeito, sorriu. Soube naquele momento que seriamos eternamente “nós”. Independente do mundo, as separações de amizades, namoro, adolescência, trabalho, vida adulta corrida, problemas, casas separadas, seríamos “nós”. Não da maneira que ela gostaria. Afinal, nunca conseguimos dar tudo às nossas mães. Acho que aqueles 9 meses são uma doação tão forte que nunca conseguiremos suprir toda energia investida. Mas mesmo em toda minha imperfeição e distância, a amo e posso olhar nos olhos dela quando for que no fundo ela sabe que existe “nós”.

Hoje, ela faz 50. Já viveu meu dobro. Duas vidas do que vivi…coisa demais. Só consigo lembrar dela com 33. Acho que a idade das mães estagnam pros filhos. E quando ela tiver 70 ainda vou lembrar dela com 33. Nunca imaginei que minha mãe chegaria aos 50. Cinquenta é como um selo. Selo redondo, charmoso e retrô. Selo de qualidade de quem já passou por meia vida. Mas de retrô ela não tem nada. Ela é estilo hippie. Meu oposto. O que eu acho lindo ela acha brega, o que eu acho horroroso ela ama. Ama aqueles vestidos largos e compridos indianos e aqueles brincos longos do comprimento do mundo. Outro dia apareceu praticamente de mãe-de-santo (brincadeiras à parte), de longo branco-luz e cabelos pintados de preto carvão. Minha mãe é uma piada. Inventa cada uma. Outro dia cortou a própria franja, ficou igual pêlo de poodle, toda enroladinha pra cima! Isso quando ela não pinta duas faixas frontais do cabelo de amarelo-laranja. Haha. Ah mãe, mãe minha! Como a amo.

Ultimamente cismou de pintar quadros. Ela pintava na infância e voltou agora. Fica madrugadas pintando. Me orgulho disso. São lindas suas pinturas. E fico feliz porque a faz bem. Ela sempre teve um dom manual incrível. Tudo que faz com as mãos é de muita delicadeza e cuidado, bonecas, roupas, doces, e quadros. Ela faz dança também. Queria ir numa aula e ficar escondidinha no canto só vendo seus passos. Hoje é dia de falar coisas boas dela. Me orgulho quando mostro a foto dela de modelo e meus amigos dizem que sou sua cara. Porque sempre achei que eu parecia com meu pai.Sempre fui a única morena da família (a adotada, rs). Então quando falam que nos parecemos, eu sorrio. Por falar em sorrir, aprendi com ela a chorar e depois rir ao mesmo tempo. Coisa de louco, mas quando nos vemos nessa situação nos entendemos. E choramos e rimos juntas. Como a amo.

Sempre que preciso dela ela está lá. Me buscando de taxi pra me salvar de uma barata (sim, demônio de barata!). Indo na minha casa ficar comigo, me fazer massagem nos pés (que por sinal, é a melhor massagem da Via Láctea) e carinho na cabeça. Sempre está lá. Nos divertimos juntas bebendo umas e falando besteira. Brigamos também, mas hoje não é dia de falar disso. Hoje é dia dela. Dia de lembrá-la de como somos “nós”. Sim mãe, não é só você e seus passarinhos! Somos nós também! rs. Cada dia que chego lá tem mais um passarinho, ela ama aquela cantoria, eu acho gritos na cabeça. Mas cada um ama uma coisa né. Estão lá, todos alegrando o coração dela. Fazendo música em seus ouvidos. Isso também a deixa feliz. Então no fim, acabo amando eles.

Sabe de mais uma coisa dela? Ela irradia. Fica linda de vestido rosa. E o sorriso é o maior dos maiores. Tem um rosto lindo. Uma boca perfeita que também quase sempre está de rosa. Vibrante. Ela é uma criança em corpo adulto. Sempre foi. Há momentos que ela expressa uma liberdade bonita como há na infância. Criancinha-flor. Flor minha. Sempre perfumada. Ama perfumes! E passou a pintar as unhas como eu. Acho lindo isso. É pequeneza mas me orgulho disso. Outro orgulho é o quanto ela é forte. Em toda sua fraqueza de bipolaridade, é tão forte! Tão forte! E inteligente. A bichinha é inteligente e esforçada. Já fez muita coisa na vida pra se manter e pra criar os filhos. Reconheço sim. Forte, forte. Por isso apelidei ela carinhosamente de “ursa”. Ursinha que adora água! Acho que aprendi com ela. Ursinha, que me ensinou a gostar de arte, música, ópera, a correr atrás, estudar, a ter princípios. E a que me inspira com seu jeito livre independente de todas as convenções sociais.

Mãe, eu te amo. Este texto é pra você! Você que sempre espera uma cartinha junto com o presente, e quando não tem sente-se incompleta. Minha carta hoje é on-line. Te desejo um feliz aniversário e bora viver a outra metade da vida que te espera! Beijo grande com todo amor do mundo.

Mãe, sei que você ama flor. Não é flor mas é uma fada-flor. Desenho que achei de muitos anos. Toma pra você de presente! rs

4 thoughts on “Para os seus 50

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