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23h. Noite fresca, de uma escuridão clara e gostosa. Aconchegante. O perfume da casa nova deixava tudo ainda mais leve. Casa limpa. Ar de limpeza nas narinas. Pés descalços no taco limpo. Corpo espalhado nas almofadas do piso da sala. Nunca se poderia imaginar o que viria. Ela nunca poderia. Era tudo tão fresco e limpo e aroma! Era confiança de um cheiro de lugar puro e desinfetado. Imaculado.

Último ato antes de dormir. Ato eclipse. O penúltimo sim deveria ter sido o fim, um beijo na Billie Jean. Seria um sono com carinho de gato e sonhos de amor com a miúda de pêlos negros. Inevitavelmente, o último: corredor para o banheiro, mãos na maçaneta, Psicho Theme assobiando ao fundo, indicador no interruptor, luzes rasgando o breu de azulejos e…o grito! Pânico! Pânico! Pânico! Desespero. Fobia! Imobilidade gelada. Nenhuma palavra no mundo jamais será capaz de definir o sentimento e a repulsa do encontro entre uma mulher e uma barata. Era uma barata média gorda, de um marrom claro transparente. Nem para ser preta e magra. Era daquelas ainda mais asqueirosas desbotadas-inchadas, parecendo doente infectada. Correu por sobre a pia e entrou dentro do armário. Ela só gritou imóvel por um tempo. Fechou a porta. Onde estava o pano pra vedar a fresta embaixo? A miserável poderia sair por ali e atacá-la. Ela só pensava nisso.

Conseguiu se mover até o quarto. Sentou na cama. “Como era possível esse demônio ousar pisar as patas ali, manchando todo brilho de sua felicidade” – pensou atônita com os pés longe do chão. Medo do chão. Poderia ela ou outras, subir-lhe as pernas. Ainda conseguiu correr, apagar a luz e se esconder sob as cobertas. Não conseguiu mais dormir. Era pavor e ódio. Só pensava em ser manhã. Espalhar mil casas de barata pela casa. Tampar todos os ralos. Se munir de “Baygon o poder é seu”.

Pânico. E se a Billie matasse e mordesse a barata? Não. Era demais pensar isso. Seria muita sujeira pra um pensamento só. Billie era só uma bichana virgem e anjo. Não poderia se sujar de sangue branco de barata. Sangue frio e calculista.

2h da madrugada. Ainda aterrorizada. Inconformada, ela sabia que um dia teria esse encontro. Mas não imaginou tão cedo nem entre tanto perfume. Tarde, nem poderia ligar pra sua mãe socorrê-la e buscá-la, como de outra vez. Então cansada de pensar e sentir raiva, dormiu. Dormiu sonhando em não sonhar atrocidades de asas escuras enormes com antenas balançando e boca de caninos afiados esfomeados escorrendo caldo esbranquiçado. Dormiu em pânico.

One thought on “Catsaridafobia

  1. Que tristeza! Tão cedo e já uma presença destas.. Minha receita. Passar kaltrine em todas as portas , janelas e paredes uns 20 cm acima do chão até o chão. Se vc não fizer isto elas continuarão entrando em seu apto. Ela vem de algum apto vizinho. Tem solução.

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