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A temperatura dos mortos não é fria como assim o dizem. É de um frio outono. Não tão frio quanto gelo de inverno. É um frio morno. Nunca toquei num corpo sem alma. Mas já me contaram dessa temperatura. Um dia vou saber como é. Quando for alguém próximo. Não vou me abster desse último toque. Mas nem quero pensar nisso. Não suporto pensar na morte. Ninguém suporta. Ninguém nunca se prepara para a ela. Nem mesmo as premeditadas. Não suporto pensar na ausência de pessoas que amo. Nem na minha própria ausência. A morte é uma ideia que não cabe em nenhuma de minhas ideias.

Pensar na morte é dolorosamente pensar o quão somos egoístas. A morte só dói em nós porque o morto nos fará falta. E não pela dor do morto, porque defunto não sente dor. Morte é algo tão cruel que nos faz doer até nisso, em perceber que toda relação humana é por interesse. Não que isso seja sempre negativo, mas que somos mais inclinados à ideia de receber do que dar. Tanto que quando sentimos próxima a presença da morte, agimos com a vida e com as pessoas com muito mais complacência. Muito mais doar. E a isso dá-se o nome de amor.

Ah se todos vivêssemos como se fôssemos morrer! Íamos viver muito mais vivos. Íamos sentir muito mais os segundos. Íamos aproveitar muito mais o bom sumo e relevar o amargo. Mas pensar na morte é absurdo demais, não é mesmo? Desespero demais, não é mesmo? Só queremos ir sem pensar que o ir vai se acabar. Só queremos a falsa sensação de que estamos no controle, o acalanto da ideia de inatingíveis. Só queremos corpos com almas mesmo que as vezes tratemos os corpos só como corpos. Só queremos porque queremos ir…

2 thoughts on “Em finito

  1. Só queremos o acalanto da ideia de inatingíveis à morte porque é um acalanto impossível para os mortais que a ignoram.

    Queremos ir para a imortalidade a partir do fim da mortalidade, no momento em que aquela poderá ser alcança, instante que obteremos o sentido de nossas vidas que se foram numa duração perfeita.

    Quanto mais amplo o sentido, maior o significado para justificar razão do seu fim.

    Como todas as histórias que precisam de um fim, nem que seja feliz e para:

    Todo O Sempre…

    • Ei Gustavo, com certeza quanto maior a razão da vida, o significado de nossa existência, melhor aceitamos a morte…ou, temos menos receio dela. Conheço gente que diz que não se preocupa com a morte. Mas sempre quando ela está próxima vem um sentimento angustiante. Eu não tinha medo dela, mas passei a ter. Não queria nunca morrer…tenho também angústia da velhice. Mas quem sabe com o curso normal dos dias este meu sentimento não passa…

      Obrigada por ler o blog. Abraço

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