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Luz vermelha. Fila de humanos em rodas e gás carbônico. Normalmente se vê primeiro as mãos pedintes estendidas lá fora do vidro semiaberto. Mas este não. Primeiro foi o olhar. De um azul esbranquiçado cego e embaçado, como se não houvesse olhar algum. Olhos mortos atravessando os meus, penetrando córnea, íris, nervos, cérebro até cruzar direto meu pensamento.

Ele mais parecia um espectro perambulando entre os carros. Velho corcunda, mirava cada além existente nas almas ali distantes. Meu sentimento era estranho, misto de curiosidade, medo e angústia. Observei sua camisa larga sambando sobre o tronco de ossos, listrada de cinza com seus fios repuxados. Os cabelos ralos saiam pelas laterais e costas do boné encardido. As pintas grandes pichavam a face e mãos enrugadas. Nos braços magros mirrados, uma daquelas sacolas coloridas de nylon, de feira de antigamente.

Hoje as tais sacolas ganham o desejável título dourado de “vintage”. Enquanto isso, o espectro continua do outro lado do muro de vidro com uma das expressões mais desconcertantes que já cruzaram meu caminho.

4 thoughts on “Camumbembe

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