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Ele tão galante, possuidor de uma aptidão tão chinfrim. Tinha olhos magnéticos para cofrinhos. Não dos delicados porcos de porcelana, de bochechas rosadas, corte no lombo e moedas engolidas no interior do ventre, mas os de gente mesmo. Aqueles sempre repelentes à vista. Adentrava os recintos e sua mira captava ao ponto todas as calças demasiadamente rebaixadas com seus regos aparentes. “Que dote insólito”, a outra pensou. Mas lembrou que o seu era tão estranho quanto o dele.

Ela? Quebrava taças. Não na parede, nem por cólera ou ato proposital. Pelo contrário, tentava mantê-las vivas o mais prolongado tempo possível. Porém, os vidros em suas mãos pareciam todos de gelo. Derretiam-se em cacos. “Se quebrantamento de copos fosse esporte, ela seria recordista-ouro invícta”, pensou a terceira. Sustaram-lhe o pensamento os outros dois: “E o seu? Qual seu dom?”.

“Eu choro”, ela respondeu sem hesitar, já engolindo tempestades de tamanha certeza sobre si. Ela era mesmo boa nisso. Um mundo oceânico existiria se suas lágrimas da vida escoassem guardadas em algum lugar. Pensava um aproveitamento para tanto mar, mas deliberou que o perfeito destino era mesmo o seu íntimo travesseiro.

Os três eram bons em alguma coisa. Na verdade, eram realmente bons em tantas outras coisas. Esses “dons” só completavam-lhes como normais. Afinal, toda boa normalidade contém doses torrenciais de esquisitices.

4 thoughts on ““Dons” inusitados

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