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Platonismo. Utopia. Idealismo e toda essa atmosfera do mundo virtual. A perfeição RGB deixa mesmo as “relações” mais vibrantes. Há na distância uma licença poética de querer ver um mundo melhor, mais fácil, mais atraente, mais leve. Todos sorridentes, sem espinhas, sem cheiro de suor de fim de dia, sem stress ou sem grana. São imagens estáticas nos melhores ângulos. As vezes semi-reclamações e partes de problemas expostos em posts só para não parecerem seres totalmente de plástico. Demonstrações de tristeza raras que ainda assim não fazem atravessar as lágrimas pelas telas. Frases e conjecturas copy-paste mais inteligentes que o cérebro consegue produzir por si só. Filtros nostálgicos aparentando momentos mais especiais do que realmente são.

Tão fácil esse vínculo oásis da conexão entre os cabos. Essa “realidade” photoshopada, maquiando os seres em pixels dourados. Perto, somos todos cizânia e trigo. Entrelaçados por dentro e por fora. Entre dons e furos na cara, bons-dias mau dados e senso de humor e sem todas as respostas do google na ponta da língua. Somos normais. Pessoalmente, perdemos essa máscara do perfil de nós mesmos. Pessoalmente, as imperfeições nos completam.

Não. Nem seria melhor o retorno às cavernas ou o naturalismo anti mídias sociais. Seria só não permitir que essa irrealidade ludibriante engulisse a verdadeira vida, que embora mais difícil, é bem mais gostosa. Convenhamos que o sabor de uma macarronada é melhor que a saliva provocada por sua foto suculenta no Instagram. Ou que poder beijar a garota mesmo que em suas crises carentes-raivosas é bem mais interessante que platonizá-la eternamente como ser perfeito lá do outro lado. E que se pararmos pra observar com os olhos de carne o que os olhos da câmera fotografam, vamos ver momentos realmente lindos

4 thoughts on “Virtualização

  1. Acho um saco a rasgação de seda e esse excesso de citações e “pensamentos” nobres e sublimes que não cabem em nossa realidade não virtual. Beleza de texto, Carol.

    • “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato…
      Ou toca, ou não toca.”
      Clarice Lispector

      hahaha, ai, ok que é Clarice, a tão banalizada nas redes. Mas eu de fato a amo. E essa frase diz tudo…Eu que amo as redes sociais e me exponho até o osso, mesmo assim, quem me conhece? Só mesmo os que me tocam a carne, os que sentem meus altos e baixos, os que riem das minhas palhaçadas em dias bem humorados, os que têm mãos pra enxugar minhas lágrimas e voz pra cantar breguices comigo. Nenhuma superexposição virtual (como a minha) pode suprir pele com pele… Me dôo como exemplo. O virtual tem invertido muitas coisas…

  2. Filha , texto MARAVILHOSO. Muito bem redigido e com um conteúdo excelente. É como falavamos outro dia : é o que muita gente pensa mas não fala. Ainda bem que existe alguém como você que tem a coragem e o dom de falar, no caso , escrever. Sinto muito orgulho de você.

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