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Foi cambaleante de sono ao banheiro. Lisa só queria poder dormir mais todas as manhãs. No ar, sentiu um clima esmagador com gosto de sangue. Abriu a porta e lá estava ele, encostado no canto do chuveiro em gargalhadas incessantes irônicas. Moreno, uns 30 anos, sustentando um copo alcoólico na mão torta ossuda. Em desespero imóvel sem fôlego, deu um grito mudo para que saísse de lá. Ele só ria bêbado. Por fim, jogou quanta água pôde na aparição. Só fez com que ficasse mais histérico. Não, ela não o conhecia, mas sentiu no corredor que ia encontrar algo. Não precisava fugir. Quem foge de fantasmas? A arma deles é matar pelo delírio.

Lisa voltou pro quarto. Em instantes, tudo parecia mais calmo pela casa afora. Apagou de stress por quanto tempo não soube. Acordou pela segunda vez em chamas de medo derretendo-lhe os órgãos dentro. Precisava sair dali. Destrancou-se. Puxou a porta de madeira e viu mais uma vez. Desta, na sala. Um garoto. Branco, baixo, branco, de cabelos escorridos negros, branco. Era muito branco! Não parecia ameaça. Mas tinha um olhar sem íris terrificante. Dois buracos negros fitando-a de cabeça semi abaixada. Parado, só sorriu, torceu o pescoço ao lado, levantou sua pequena mão infantil branca de dedos inchados, fez um sinal: “venha”. Apareceu na sala então, o maior. Expressão disforme de cólera. Correram os dois, com dentes latejando fome, em direção sobre Lisa. Ela só conseguiu pegar o celular para chamar por ajuda, ele vibrou e ela por misericórdia acordou. Exausta, arfando em lágrimas, berrava demente pela casa. Não suportava mais a opressão esmagadora de seus pesadelos.

Molhou a face para as pálpebras não fecharem mais. Só queria a lucidez da vida. A fadiga do mundo real era bem menor, havia como se defender. Nos sonhos, era só uma marionete brinquedo de seu inconsciente súlfur. De repente, cortando sua indignação, sua companheira de casa começa a rir lá fora. Soube então estar sonhando ainda. Não, sua amiga não estava lá. Era ainda insânia. Achou que nunca mais acordaria de verdade. Que sua mente havia lhe enjaulado pra sempre. Que só encontrariam seu corpo estirado nos lençóis babando em coma, sussurrando por dentro que lhe matassem e desligassem o tormento oculto de sua cabeça. Acordou. Sentiu ser real finalmente. Uma lembrança…só uma lembrança, não havia trancado a fechadura da sala. Foi o segundo de levantar e ver o homem adentrando o apartamento. Uma face de velho tarado, nojento, com uma jaqueta preta amassada e o jeans de zíper frouxo. Na mão, uma faca e na expressão um tom porco ameaçador. Os pés gordos trituravam o chão.

Lisa trancou o quarto, ligou pedindo ajuda com uma voz quase muda. Soletrava sobre o assassino. A porta entreabriu-se, ela empurrava e trancava e a porta abria, e ela trancava, tentando manter-se viva até alguém chegar com a polícia. Ele foi mais forte, num empurrão maciço do outro lado, soterrou Lisa entre a porta e a parede. Já quase esfaqueando-lhe o estômago, o despertador tocou. O despertador tocou! Não fazia sentido alguém ter sonhos tão reais. Abatida e alienada, indefesa de si mesma, se trancou no banheiro, chorou, fez outra ligação: “Não sei se estou acordada em carne e osso, por favor me tire daqui”. Sentou no canto do chão frio. Só tremia. Esperava a próxima alucinação. Nada. Nenhuma voz, nenhum vulto, nenhuma risada. Só o silêncio da pia pingando. Conseguiu tomar um banho e sentar-se novamente. Não saiu enquanto seu telefonema não chegou. Nunca sentiu tanto alívio ao som de uma campainha.

Um abraço. Um calmante e a fraqueza na alma de sua eterna luta noturna. Não foi desta vez que se perdeu no labirinto sórdido de seus pesadelos…

4 thoughts on “Incubus

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