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Passou sozinha na rua, olhando pro chão, com aquele sorriso na cara e o balançar de cabeça de quem descobriu algo muito importante. Minutos antes era um sorriso nervoso de quem “está rindo mas no fundo está chorando”.

– Quer se deitar?

Deitou-se sem jeito. Nas mãos, a companhia do cartão de entrada do prédio comercial. Dobrava e redobrava tentando a sensação de não estar sozinha consigo mesma. As pernas, duras de quem faz força pra não se soltar. De quem tem medo de estar à vontade. Medo de estar livre. Medo de estar livre? Então a sensação de sufoco que sempre se queixou era provocada por ela mesma?

Uma cortina daquelas bem pesadas de veludo foi se abrindo, como em um teatro, e lá estava ela como protagonista. Descobriu que quando falava sobre um tal “você”, estava falando sobre o próprio “eu”. Que ao invés de sobrar demais uma matéria desconhecida por dentro, na verdade faltava. E pensou que se faltava, era muito mais fácil de solucionar. Só teria que buscar algo que preenchesse o vazio. Descobriu que os pedaços de mundo devorados por sua boca não eram válvulas de escape, mas insaciedade. Insaciedade…pelo contrário do que sempre pensou, não era mágoa transbordando, era fome. Matar a fome é mais fácil que matar a mágoa.

Descobriu o quanto tudo tem uma conexão. E o quadro que ela sempre analisava em sua frente na parede daquela sala, era o tal “você”. No caso, ela. Uma forma de faca, outra de ampulheta deitada, outra de algo que lembrava uma face sorrindo meio triste e uma faixa branca lá em cima que ela pintava mentalmente.

– O que te incomoda no quadro?
– Está incompleto. Aquela faixa…

Pronto. Em um momento inesperado, surgiram muitas respostas. Lecto, do latim, divã.

4 thoughts on “Lecto

  1. Filha, texto Maravilhoso ….como você é . Assim parece fácil se identificar e achar saída para tantos conflitos e dúvidas e …. uma hora , hora qualquer , até fora do divã nós vamos achar a solução. Digo nós porque eu também tenho perguntas sem respostas. Te amo, querida. Vejo a cada dia você mais consciente de si mesma e de seu mundo. Seu esforço por si achar e se resolver me faz orgulhosa de você. Bjm.

  2. Emocionante, Carol! O momento dessa descoberta na vida da gente é de um alívio e beleza imensos. E esse texto capta muito bem essa emoção!

    • É impressionante como uma hora as coisas que sempre estiveram ali no nosso inconsciente e consciente se encaixam e a gente vê as conexões se formarem na nossa frente! É como pegar um bolo de cordão dourado, mexer e remexer e de repente ele desembolar surgindo a forma conhecida de um colar.

      Bjos!

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