Home

Foi com seus passos pesados irritando os vizinhos abaixo. Devagar e bêbada de um cansaço apodrecido das horas. Chegou em frente ao baú dali do canto de todos os anos, quebrou a fechadura corroída com um golpe duro de martelo. Teve medo de abrir e todos eles saírem voando lá de dentro em busca de outro dono que lhes cuidassem bem e fizessem crescer. Respirou na fundura da mais baixa parede do pulmão, sugando todo ar vago. Estava pronta para encarar aquele que seria um dos momentos mais tristes de sua vida.

Abriu a tampa de madeira empenada e dentro parecia vazio. Não podia ser! Eram tantos guardados ali! Olhou cada beirada de ferpa até encontrá-los grudados e mirrados no fundo. Desidratados e sem cor. Murchos quase rasgando de frágeis. Quanta negligência! Eram inspiradores, promissores, numa juventude fresca com cheiro de grama. Eram o futuro.

Como foi acontecer? Em que momentos os melhores sonhos foram parar lá? Presos num porão de baú. Mortos. Mortos! Os esbeltos sonhos com cheiro de orvalho, de mel de abelha silvestre, de terra molhada, de canela e erva cidreira. Eram sonhos! E passaram a vida inteira cantando um hino de resgate até morreram e se tornarem apenas ossos.

Nem as lágrimas mais quentes poderiam trazê-los de volta. Nem os sonhos, nem o tempo…

2 thoughts on “Somnia

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s