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Todas ali, senhoras felizes, de bocas-batom e pinturas na parede. Tucanos, gatos, flores. Tudo colorido. Tinham quadros realmente lindos. O que me faz pensar que arte não escolhe idade nem o “título de artista”. Arte está dentro de qualquer peito. O discurso do presidente, as paredes cheias, os sorrisos estampados, a professora orgulho. No andar de cima, o coquetel.

Cadeiras azuis de plástico pregadas nas paredes. Muita gente sentada e o moço passando servindo vinho. Rogério seu nome. Acho que gostou de mim porque eu que mais contorcia a taça em sua direção. As senhorinhas ficavam nos refris e a mesa de salgados.

Quanta gente interessante! Tinha a pantera cor de rosa com sua calça, blaser e blusa todos pink. Com detalhes de miçangas pink desenhando o colo da blusa. Seu cabelo era cinza curto arrepiado elegante pro alto. Os óculos marrom-caramelo e brincos de pérolas pontuando as laterais. O colar era de pérolas brancas e grafite retorcidos. Ela era, digamos, um marshmallow de alto astral.

Florais, muitos florais. Porque senhoras gostam tanto de florais? Tinham também rendas e poás. Mas os florais germinavam nas vestes. Enquanto escapulários balançavam fé entre as dobras dos pescoços. Sem falar dos cabelos curtos! É regra depois dos 40/50 tosar as madeixas? Se sim ou não, eram madeixas graciosas.

Lá sentada, a senhora de preto até nas meias, sapato lustrado e calça preta de risca de giz, emanava seu detalhe: o colete de crochê laranjado flúor de doer os olhos com o colar volumoso de pedras alongadas laranjas realçando o queixo. Cabelos castanho claro virados nas pontinhas pra fora num ar de filme antigo e as argolas gentis dourando os lóbulos.

Tinha aquela outra, de pinta grande na testa e tom negro lindo na pele. Cabelos presos crespos-noite sujos de loiro queimado. Brincos grandes balançando, dentes brancos e a tal pinta intacta olhando nos meus olhos.

Até que ao meu lado sentou-se Marli. Ou Marlene? Ou Marleninha? É que a voz era baixa e mirrada assim como seu corpo de 66 anos. Ali, não estava expondo pinturas. Ela só dançava e bordava em outras turmas. Contou-me como morreu pra arte e ressucitou. Foi o coração. Meses tentando acalmá-lo no leito. Toda de pólo rosa e branco listrada e casaco de lã na cintura, contava do hospital, dos 9 irmãos, os 3 filhos, a neta (ou era neto?), o casamento da filha no fim do ano, o quanto gostava de dançar e que aprender crochê era difícil no começo.

Despedidas de todas senhoras e não posso deixar de dizer dela, aquela que pintou araras vermelho-azul-amarelas com macacos escondidos no plano detrás da mata. Pintou um passarinho nos galhos de flores rosas redondas. E pintou um pássaro-viagem sobre águas delineando as pedras. Estava linda de longo marinho minha querida mãe.

Pintar liberta a alma. Almas ali tingindo o andar enquanto eu esquecia minha dor.

4 thoughts on “Exposição

  1. Sua dor não te impede de observar as sutilezas do mundo ao seu redor. Sua dor não te impede de transformar isso em um texto maravilhoso. Sua dor NÃO É você, ela só mora em você. Às vezes ela sai e deixa o sol entrar, às vezes incha e ocupa todos os cômodos, não deixando nem uma fresta de luz. Mas ainda assim, sua dor não é você. Ela só faz parte de você. E isso tem até uma certa beleza, se a gente for reparar… O mundo é muito, muito grande, e cabe dentro dos seus olhos! Não coloque viseira, não se algeme, não se deixe prender! Quebre as muletas e faça pincéis! Pinte seu mundo, deixe-o com as suas cores. E quando tudo estiver no lugar, faça uma festa, convide o amor… Você merece amor.

  2. Marshmellow de alto astral, como consegue comparações tal originais ? Fico maravilhada com os olhos que minha amada filha tem para ver, notar, reparar e engrandecer tudo que vê ao redor mesmo em seus momentos de dor. Aliás a dor também é exageradamente engrandecida pois pessoa tão linda, talentosa, amada, como pode sofrer tanto e com tanta frequência ? Bom, tem gente que gosta da dor. Nós, senhoras , que já passamos dos cinquenta e sabemos que a vida é muito curta para perdê-la sofrendo, , buscamos na arte, na yoga, nos exercícios físicos, no companheirismo, na dança, no tricô, no crochê, na pintura, momentos de lazer que nos tragam alegria, paz, equilibrio. Sou muito feliz de estar ali fazendo parte deste grupo. Seu texto é Maravilhoso. Obrigada pela presença e carinho para comigo e minhas senhorinhas mui amadas.

    • Parabéns! Seus quadros são lindos! Fico feliz de ver que vc faz coisas que gosta. Sobre a tristeza, eu também sorrio muito, brinco, me divirto. É que como é tudo intenso e a tristeza acaba aparecendo mais, fico estigmatizada.

      Bjo!

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