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De repente bateram desnorteadas à minha porta: o Desespero, a Amargura, o Ódio, a Loucura e a Covardia. Como nunca nego palavras, abri. O cheiro rarefeito invadiu meus poros e alvéolos. Mas abri.

O Desespero logo entrou com pés ansiosos, esparramando-se nos futons da pequena sala. Cabelos elétricos e em frenético contorcimento berrava mágoas. Na sensação de impotência, correu para a varanda e debruçou-se na grade para se jogar. Quando percebi, o Desespero tinha bebido a Amargura e estava ressecando de aflição por dentro. Queimando-se em ácido e regurgitando amargo. Puxei-lhe o braço, e em meu abraço, ninei uma canção de conforto e esperança. Consegui alívio e sono em suas pálpebras. Deitei-lhe na cama com cobertas quentes e travesseiro alto.

O Ódio, vendo a cena, inflou-se rancoroso e com seus olhos vinho inchados, tentou me esganar. A Loucura, desceu do salto, vestiu-se, jogou sua peruca ao chão, e em seu raro momento de razão, mostrou ao Ódio um suicídio evitado e a existência ainda do amor. Ele chorou. Chorou como moça virgem envergonhada. Pingou colírios e observou o Desespero dormir como criança em um conforto despreocupado.

E a Covardia? Queria tanto entrar e sumiu. Vai ver se agachou nos degraus escuros da escada de incêndio lá fora, junto com as baratas e o nada.

Cuidei de todos eles, mas a Covardia, ah, essa era mesmo uma vira-lata medrosa indomável…

2 thoughts on “Visita

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