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Mirava o vazio, sentada sobre os florais de veludo de seu sofá. Os acariciava tendo aquela que era uma das suas preferidas sensações: o tato macio dos pêlos e superfícies espumadas na pele. Um cigarro alternando entre o minuto na boca e os dez no cinzeiro improvisado. O pires delicado de porcelana foi separado da sua xicrinha lilás listrada para virar berço negro de cinzas. Ela evitava comprar cinzeiro de verdade. Porque se um dia tivesse um, também teria que fumar de verdade. Seria oficialmente fumante. Definitivamente, ela não queria esse fato.

Então, ali, somente ela, o tecido entre os dedos, os tragos largos largados, o pirezeiro salpicado de ex-chamas, praticava aquele olhar distante. Olhava pra sombra das horas noturnas sem pensar em absolutamente nada. Um nada que continha palavras soltas na mente e uma libertadora despretensão. Quando sentia um incômodo querendo tirar-lhe o “nada”, ela só passava pra próxima música. Certas melodias incomodavam, mesmo as das bandas preferidas. Traziam de alguma forma algum tipo de pensar. Ela não queria coisa alguma que tivesse forma, coisa alguma que não fosse aquele oco momento. Ah! …Naquele oco ela podia ouvir o agudo do seu próprio eco…Só. Sozinha. Sim, simplesmente com tudo que ela precisava estar.

Respirava o nada, o som, a fumaça rala e sua própria alma.

One thought on “Sem título. Três pontos…

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