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Sempre quis escrever sobre ela… aquela que passei momentos bons na infância. Tanta coisa mudou e a maior dor é a de chegar lá hoje e já ter me acostumado com a nova rua que tomou conta da minha. Uma dor que não dói. Dor insensível, calada, chamada esquecimento. Então antes que eu me esqueça… Era uma vez uma casa-pombal, a casa-floresta, a capoeira do Mão Branca e o pé de goiaba da Dona Iolanda.

Todos os dias no mesmo horário, Seu Romeu abria as gaiolas e eles voavam sincronizados pelo céu do bairro. Era um ritual do nosso Santo Antônio: céu de pombos denunciando as horas. Depois voltavam e pousavam juntos pro repouso. Ele prometeu que um pombo era meu e outro do meu irmão. Mas os guardava pra nós. A casa tinha o pombal, o quintal, o cachorro, os móveis antigos, Seu Romeu e as irmãs. Não lembro se sete ou quantas eram. Eram muitas. Eu ainda criança e eles todos já velhos. Velhos e doces. Dona Julieta é de quem me lembro mais, me acolhia com balas, seus oclinhos e cabelos curtos cinza enrolados pro alto. Seu Romeu era um amor, dele me lembro das sagradas corridas de F1 na tv, quando vibrávamos juntos com o Senna. No quintal deles eu enterrava todos meus ex-bichos de estimação. Lá repousavam coelho, gato, cachorro, pintinho, porquinho da índia e a dor infantil de cada perda. Mas, ter um cemitério tão próximo com direito à cerimônia improvisada de enterro, era uma ternura. Deles, além dos pombos, me lembro do cachorro. Deveriam ter mais cachorros, mas só me lembro desse. Acho que sua morte foi muito forte pra mim. Ele já tinha anos demais, carregava olhos cegos e um dia fraco, caiu e afogou a cabeça no ralo que tinha sido esquecido aberto. Morte estúpida. Nunca consegui entender. Ali era uma casa que continha muita velhice e carinho impregnados. Velhice em cada cafezinho tomado em xícara antiga…Daqueles conjuntos de xícaras que se guardam em cristaleira e criança não pode chegar perto que quebra. Cheiro de madeira, açúcar, cocô de pombo, terra, café e abraço… Cheiro de abraço. Seu Romeu morreu, as irmãs foram morrendo, as casas do bairro foram sendo tomadas, surgiram prédios, aumentaram os carros e faltaram vagas. As irmãs que ficaram, tiveram que vender a casa que deu lugar à um estacionamento. E hoje está lá, o estacionamento em cima disso tudo.

E o que dizer da casa-floresta? Era ao lado da minha janela. Do meu predinho de 3 andares, eu ficava debruçada olhando as copas das árvores por cima. Era uma extensão verde vistosa, revestida de canto de pássaros e rabos de gatos. Eram tantos gatos correndo entre as folhas que só se viam vultos. Já tive gato fugido e bem deve ter ido parar lá. A casa ficava mirrada no fundo do lote. Seus moradores deviam se sentir num oásis selvático. De repente não tinha mais casa. As árvores foram todas desfolhadas, cortadas, sangradas… Nos tocos dos troncos, subiu um prédio de não sei quantos mil andares. Foram anos sequentes com aquela paisagem trocada por pó, barulho e pedreiros no meu dia-a-dia. Se foram o horizonte, a privacidade e os gatos. Irônico que depois tive uma amiga que mudou da esquina pra esse prédio. E eu ia lá brincar no parquinho, jogar bola na quadra…Parquinho, prédio e quadra brotantes da necrópole de mata. E hoje, o que existe é uma rotina de vizinhos cara a cara de janelas coladas.

Ah, a capoeira do Mão Branca! Ícone de Belo Horizonte. Ficava ali do outro lado da rua. Pai da minha melhor amiga. Quando a conheci ela me perguntou se eu era menino ou menina. É…vou rir disso pra sempre. Eu tinha um cabelo curto desgrenhado e um rosto não muito bem ainda afeminado. Nos tornamos inseparáveis e ficávamos horas juntas. Até nos vestíamos igual com os conjuntos combinados que minha mãe costurava pra nós. Na capoeira, tinha o salão na parte debaixo e uma escadinha com um escritório em cima. Nós fazíamos tererês e pulseiras coloridas de linha pra vender. Ganhamos bons trocados. E na rua, brincávamos de fazer pegadinha com quem passava. Os dias eram leves assim. Teve um ano que a camisa da capoeira era estampada com nossa foto, eu morena, ela negra e tinha mais gente, acho que uma loira e não sei quem mais, era a diversidade. Parei de ir quando, numa roda, levei um baita pé na cara. O cara não teve culpa. Acontece. Só que vai convencer a mãe disso! Deve ter sangrado bastante o nariz, porque minha mãe me tirou da capoeira. Mas eu a Lu continuamos amigas e depois de um tempo, Mão Branca saiu de lá. O bairro perdeu um emblema. Se foi o som do berimbau.

Falando do pé na cara, eu gostava mesmo era do pé de goiaba. Macacava o dia todo nos galhos. Ficava nos fundos da casa da Dona Iolanda. Ela era bem idosa, corcunda, branquinha na pele enrugada e nos cabelos falhos e tinha o rosto torto. Dizia que entortou saindo do banho quente quando jovem, o vento bateu gelado e ficou torta. Eu morria de medo de entortar igual. Dona Iolanda junto com a Catarina, que cuidava da casa, criavam a Aurinha que era minha amiga. Juntávamos todas as meninas e subíamos na goiabeira, imaginávamos em cada canto lá em cima um cômodo de palácio, comíamos folhas brincando de porções mágicas e o leite das plantas sempre manchava a pele. Era pique-esconde, ioiô da Coca, furgão da Barbie, caixa de música com bailarina dentro, patins na praça, piscina de mil litros. Era pular o muro no vizinho pra pegar a bola que caía. Pulávamos escondido, por causa do cachorro enorme preto brilhante, com os dentes maiores que nossas cabeças. Sabíamos que ele era bonzinho e pulávamos no meio dele sem medo nenhum. Na verdade, com médio medo. Esse medo-corajoso de criança. Lá era os fundos da locadora. Saudades da locadora! Hoje em dia o costume de alugar filmes faleceu nas décadas. E o roseiral…tinha um roseiral perfumado. Quando brotava, todo mundo do bairro pegava rosas pra enfeitar as mesas dos lares. Amarelas, brancas, púrpura. Dona Iolanda morreu. Foi o primeiro defunto que vi olho no olho. Congelada, imóvel, mais branca que nunca, mais branca que suas rosas. Aurinha foi morar em outro lugar e logo quem preencheu a casa foi outra amiga minha. Isso já na adolescência. Minha melhor amiga, Aline. Estudamos e jogamos vôlei juntas. Era todo final de tarde subindo a pé o tobogã da Contorno pra chegar no treino. E as aulas no Estadual Central, a noite. Aí a infância já tinha ficado longe e eu já trabalhava desde os 15. Depois de um tempo Aline e a família mudaram da casa e ela ficou abandonada por um tempo. Acho que hoje estão construindo um prédio lá. Ficou tanto tempo erma que passei a passar sem mais ver.

Essas são só superfícies de algumas recordações. E fico pensando como em poucos anos os lugares e as pessoas podem mudar tanto. Como as mudanças nos lugares mudam a gente…mudam a rotina, as amizades, a visão de mundo. E daí a gente se acostuma. A capacidade de adaptação do ser humano é uma bênção e uma maldição: uma bênção enquanto extinto de sobrevivência e uma maldição enquanto deslembrança. Hoje, quem ainda está na rua é minha mãe. A Lu da capoeira já morou fora e tem uma filha, a Aline está grávida e mora em outro bairro, a Aurinha nunca mais vi e eu estou aqui, morando sozinha, numa nova rua com prédios sendo construídos e sabe-se lá quem por aí escreve o que daqui.

É, saudades do que passou. Se essa rua fosse minha…eu manteria vivas todas as histórias que passaram por ali.

8 thoughts on “Se essa rua fosse minha…

  1. Filha amada, que texto maravilhoso. Esse tem ficar guardado em uma moldura. Seu passado na rua. Lindo. As pessoas se foram e lendo seu texto, choro. Choro de saudades do que se foi e nunca voltará a ser. Sr. Romeo, Tia Yolanda, a casa do Sr. Gilson, aqui ao lado, Mestre Mão Branca, suas amiguinhas, as rosas, os defuntinhos ( bichinhos ) . Ah, e o pintinho quando morreu e eu falei que nem havia tido pintinho , que ele nem tinha existido. Para você não chorar. O pintinho tinha uma casinha de Barbie para ele. A piscina de mil litros dentro de meu banheiro , onde você e suas amigas faziam tanta bagunça, numa felicidade de dar felicidade de ver.As roupinhas que eu fazia para você e suas amigas. Eram lindas, não eram ? Não me lembrava que tirei-te da capoeira porque te machucaram. Hoje em dia ainda vive a Da, Julieta, mora em uma rua aqui perto. Recordações Maravilhosas. Obrigada por me tê-las recordado.

  2. Carolaini, coincidências estranhas da vida. Escrevi também este fim de semana, um texto sobre a minha rua. Aliás, uma rua abaixo da que você mora hoje… Inspiração de um filme que asssisti no sábado – Camille outra vez. Lindo demais o seu texto. Um estilo novo de Carol. Um texto limpo, simples, muito bem escrito e muito emocionante! Parabéns!!!! Muito lindo mesmo! Vou postar o meu agora.

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