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Ela: Sem Nome. Nasceu naquele pântano sem saber como nem quando. Talvez a mãe morreu no parto. Talvez um genocídio deu fim à toda sua tribo. Ou talvez ela veio da lama. O fato é que o pântano a criou. Sozinha. Ela tinha os olhos escuros, profundos, cheios de lago. E as mãos eram macias cheias de lodo. Ela cheirava argila com erva doce. E tinha um espírito mareado. Devia ser o ar do pântano. Rarefeito e denso. Eram as árvores que formavam uma extensa trama debaixo do céu que quase não trespassava a luz do sol. Debaixo da trama, só trespassavam corvos. E ela comia todos. Lhes cravava a lança, eles caiam, ela lhes metia os dentes e sentia calma. É que eles eram multidões, sobrevoavam demais por ali, grasnavam em tom de ameaça e ela temia que um dia eles a atacassem à noite. Matava todos e ficava em paz por um tempo. Era a paz em troca de um gosto negro, forte, que lhe abatia o estômago.

Fora seus corvos, ela passava os dias de uma forma intrigante… Ela despertava o interior das cavernas. Seu passar de tempo era encontrá-las, chegar na beirada e berrar. Berrava o mais alto que podia. Jogava pedras lá dentro e esperava. As vezes voavam morcegos pra fora, as vezes só rugidos retornavam no eco e as vezes animais enormes saíam furiosos. Ela se escondia e os observava atordoados. Despertava cavernas… Quanta coisa tinha dentro das cavernas.

Até que um dia, jogou tantas pedras e gritou tão estridente que um vulto voou para fora e a atacou. Era um ser como ela nunca tinha visto igual. Se assemelhava à um urso com asas de andorinha, pêlos brancos de coelho mas a raiva de um jaguar. A mordida na jugular sangrou até quase a Sem Nome morrer. O ser olhou nos seus olhos com uma expressão de defesa, a cabeça ferida pela pedra, urrou como se chorasse e voltou pra caverna. Ele não queria machucá-la. Ela ficou na terra estendida por dias, até parar de sangrar. Se levantou fraca, respirou fundo e andou… Andou até o infinito e quando chegou ao fim, andou mais…

Certo dia, andando, descobriu num canto uma espécie de flor. Com um cabo plumado verde água, umas pétalas chumbo que refletiam quando a luz batia, e uma pequena fruta que brotava no meio, que parecia uma cereja rosa adocicada. Ela colheu com cuidado até o mais profundo da raiz e passou a plantá-las. Passou meses plantando. E chamou-as também de “Sem-nome”.

Quando o pântano estava coberto, as flores refletiam tanto o pouco sol que entrava pelas árvores que iluminou tudo ali. Os corvos sumiram e ela passou a se alimentar das cerejas. E com os dias, ela descobriu um novo sentido de vida: continuou procurando as cavernas. Mas ao invés de berros e pedras, trazia nas mãos as Sem-nome. E dia após dia, passou a plantá-las em cada entrada de caverna. Respeitando o que havia dentro de cada uma.

E depois de passar tudo isso, Sem nome descobriu que também tinha luz em si…e uma estranha paz brotou e seu pântano passou enfim, a ser um lar aconchegante.

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