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Horas e horas incontáveis olhando para aquela pia. Horas imensas. Horas infladas que esculpiam os anos envelhecidos. Na pia, aquela faca. Era de ferro com madeira maciça e um acabamento firme entre o cabo e o calço. Mas o ferro já estava enferrujado, a madeira mofada e a lâmina despontando arestas. O fio de corte já não cortava. Rasgava. Mascava superfície e fundo.

Uma boa faca é uma arte. E cada faca, nasce para seu corte. Há facas para sushi, carne, legumes, lagostas, alfaces…E há ainda, a maneira do corte, se correto, o resultado é um bom prato e o realce do sabor. Bom… se não for… se não foi… Era isso que ela pensava quando olhava pra faca, pras suas mãos feridas e pro sabor acre espalhando da sua alma. Via a faca e tentava desvendar o enigma: se foi erro de manuseio, se a lâmina que não lhe era própria ou se ambas as coisas. 

O fato é que independente das respostas, a cena era aquela faca e suas mãos trinchadas. Já penduradas em carne viva e o sangue, de velho, já todo em crostas sobre a pele. O único movimento que lhe restou às mãos foi o de desatar a porta da cozinha e ir.

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